A ti eu nunca pertenci

28 abril 2017


  

Foram tantos momentos. Tantos afagos. Apelos. Apegos. Abraços. Depois, afasia. Ouça-me bem, querido, de cada amor, tu herdarás só o cinismo! Escutávamos esta música como se, ulteriormente, não significasse nada. Significou. Queria que pagasse com o cinismo. O cinismo o qual devasta a interioridade de quaisquer homens, o cinismo que é substrato da ignorância, da ignorância de deixar-me à míngua. Ah, eu não queria ser tão melodramática.

Não posso negar, fui feliz. A eternidade na qual passamos juntos, fui feliz. Chamava-me de “Pequeno Clichê em Forma de Gente”, e eu jamais irei me esquecer, nem gostaria de esquecer, de te esquecer. Por quê? Porque, por bem ou por mal, foste uma gotícula da minha vida em certa ocasião que, por ora, marcou-me.

A ti eu nunca pertenci, e se pertenci, fora parco. E a mim, sim, também tu não me pertenceras, e se pertenceras, fora, também, parco.
Porém, acho justo dizer do vácuo que não queria sentir e, por isso, acreditei que não existisse, que fosse obra da minha imaginação, que, por ti, deixei o barroquismo para dedicar-me à poesia contemporânea, a qual, juro-te, odeio, mas que as circunstâncias fez-me fazê-la. Odeio!

Uma das minhas promessas é voltar a ser o que eu era antes, a escrever o que eu escrevia antes, a sentir o que eu sentia antes, a fazer o que eu fazia antes, não mais mecanicamente, não mais forçosamente, não mais à espera da aceitação de alguém, da tua aceitação.

Chamava-te de “Gigante do Meu Peito” – não só por contraste do apelido que me deste –, porque ocupava, ipsis litteris, em mim, em meu coração, uma légua diametralmente, sem exagero. Se cortasse meu peito, desmontar-me-ia imediatamente.
Ainda tenho o teu adaptador de áudio para dois fones. De quando íamos ao parque, ao léu, ao destino, ao imprevisível., e compartilhávamos sons, músicas, transpiros, suspiros.
Enfim, meu ex-Gigante do Meu Peito, se a vida fosse da forma a qual quiséssemos, não teria graça. Cansaria. Seria monótono. Sentiria mais afasia.

Encerro-me minha curta vida ao teu lado dizendo-te ‘quase sem querer... me fiz mil pedaços para você juntar, e queria sempre achar explicação pro que eu sentia, como um anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo...  Agradeço ao Renato Russo por escrever a última estrofe de nossas vidas’
obs: estou a recuperar o barroquismo.

de Jenny Maiakovisk para um futuro desconhecido.



(Cadu Rodrigues) 


29 comentários:

  1. Nossa, bateu uma bad agora. Texto retrata o que acontece muito nos relacionamentos de hoje: conhecer alguém legal, se apaixonar e no fim não dar certo. Muito triste. ;--;

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    1. Exacto, Death Life, o texto relata a temporalidade das relações, da resignação da perda, da saudade, do desejo. Enfim. Agradeço-te pelo comentário.

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  2. gente do céu que intenso meu deus. dá vontade de chorar quando me vejo em situações tristes e leio coisas assim. é tão belo, mas tão doído. adoro teus textos! belos sempre

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Primeiramente, muito obrigado pelo elogio, é com extremo lisonjeiro que o recebo. Segundo, a tristeza é um sentimento temporal, que vem e vai, e, decerto, podemos tirar boas experiências com ela.
      Jenny sofreu e sofre por não ter seu amor a seu lado. Porém, Jenny sentiu o amor, o ardor, os sentimentos quiçá mais belos que ela poderia sentir, e por isto ela se resigna a apreciá-lo nas lembranças. Como diria o saudoso Almir Guineto "pra que se lamentar se em sua vida pode encontrar quem te ame com toda força e ardor? assim sucumbirá a dor".
      Ela sabe que encontrará seu amor em quaisquer esquinas no porvir.

      Obrigado, DAIANA FANT, pelo comentário.

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  3. Jesus, é tanta cultura neste texto que não sei por onde começar. Adorei mesmo o texto! O que dizer de Maiakovisk? Sua poesia mexe tanto comigo ue posso reler mil vezes qualquer uma de suas poesias e terei mil emoções diferentes!

    E esse menino Cadu também escreve muito, haha!

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    1. Jenny recebe teu comentário com enorme gratidão, Rob Camilotti. Outrossim, também o recebo com demasiada agitação.
      Fico feliz que ela, a Jenny Maiakovisk, faça-te, de alguma forma, mexer com os teus devaneios.
      Isto dá-lo-á mais aspirações a dissimilar seus sentimentos, que, por ora, estão em constante frisson. Mas, como ela diz, "a dor expele poesia".

      Novamente, Rob Camilotti, muito obrigado pelo comentário!

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  4. Amei esse texto! Ele é muito intenso e é algo que passei a pouco tempo. Esse texto te faz questionar tudo o que se passou daquela relação e ao mesmo tempo tudo o que ficou de positivo.

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    1. Exatamente, Karina. É contemporizar o presente, porque em relações podemos tirar coisas positivas, sobretudo o próprio sentimento. Ou seja, por difícil que seja, precisamos forçar um olhar àquilo que é bom no que se tornara fugaz.
      Muito obrigado pelo comentário.

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  5. Uall! Como esse texto mexeu comigo, passei uma situação dessa, onde quase foi necessario juntar meus pedaços, hoje após isso sou bem mais forte, parabéns por meio da sua escrita pudesse sentir emoção e Me Me sentir mais forte

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    1. Joyce, sinto-me felicíssimo que meu texto, de alguma forma, te fortaleceu. O maior presente que um escritor pode receber é a valorização e significação do que escreve. Então, tu me deixaste efusivamente feliz.
      Agradeço-te pelo comentário.

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  6. Oii, por acaso a música que citou no início é do Cartola 'O mundo é um moinho'. Gosto demais dela.
    Que texto lindo, que texto maravilhoso!
    É tão poético a maneira como escreve seus textos, e inusitado as palavras que utiliza nele e se encaixam perfeitamente.
    Por momentos descreveu o que eu sentia/senti/sinto..
    Beijos!

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    1. Sim, Ianca, é do nosso saudoso Cartola, um grande poeta. Compartilhamos o gosto pelo Cartola, então.
      Fico maravilhado por ter gostado do texto.
      Obrigadaço pelos elogios e tudo mais. Agradeço-te do fundo meu coração.
      E obrigado por comentá-lo.

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  7. Menina que talento com as palavras... Me emocionei com cada partizinha do seu texto , muito lindo e você vai ter muito sucesso

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    1. Fico feliz pelo elogio.
      Muito obrigado pelo comentário.

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  8. Oi, tudo bem?
    Que texto sensacional em! Muitas verdades ditas! Traz muitas sensações diferentes, é louco!

    Beijos

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    1. Quézia, ao escrevê-lo, quis que ele transpusesse sensações, aquelas sensações que temos ao iniciar e terminar um relacionamento, e, conjuntamente, clarificar alguns pontos que necessitamos entender sempre num findar. E fico feliz que eu tenha conseguido com o objetivo.
      Muito obrigado pelo comentário.

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  9. Texto incrível! Reflete perfeitamente a realidade de muitos que passam por esse tipo de situação! Parabéns a autora!

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    1. Exatamente, Hoje é Dia de Livro, como diz nosso querido (que descanse em paz) Belchior "A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais".
      Necessitamos expor a realidade.
      Muito obrigado pelo comentário.

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  10. Uau esse texto retrata o presente, coisas que vemos acontecer sempre e que é tão triste. Parabéns, bjs.

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    1. Estilo. Quem Tem?, fico felicíssimo que tenha gostado.
      Obrigado pelo comentário.

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  11. Amei esse texto, intenso e cheio de significado, muito forte. Sou apaixonada por seu blog. Sempre encontro coisas incríveis.

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    1. Andy Vieira, não sabe o quão fico feliz com esses elogios, realmente é uma coisa que faz com tenhamos mais vontade de escrever, de mostrar às pessoas uma saída para algo, enfim, fazer algo de significativo a pessoas que necessitam. E sim, este blog é magnífico, pode vir sempre que, prometo, terá coisas muito boas.
      Obrigado pelo comentário.

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  12. Amei o texto!! Muito intenso e me deixou na bad real, hahah, parabéns!!

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    1. Muito obrigado, O Canto do Livro, muito obrigado mesmo!
      Não fique na bad. Saibas que, independentemente do que estás a passar, irás sair dessa!
      Muito obrigado pelo comentário.

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  13. Que lindo!
    Confesso que deu saudades da minha época de adolescente agora. Época em que pensava que amava de verdade e ficava nessa loucura quando o namoro acabava. Mal sabia eu que era apenas ilusão e que amor não é nada dessa doença que faz as pessoas sofrerem. O amor e lindo, delicado, tranquilo, suave...como o que sinto hoje.

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    1. Obrigado, Meu Cantinho Literário. RSRS, sempre bate aquela reminiscência dos nossos tempos passados, né? A experiência vai amadurecendo-nos, até que, não plenamente, conseguimos suportar algumas dores de uma melhor forma.
      Muito obrigado pelo comentário.

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  14. Mais um texto lido e surpreendido.
    Parabéns pelo texto e sempre com uma escrita única. Cheia de mistérios e verdades instauradas.
    Dizem por ai que tudo que colocamos pra fora, é vivido. Isso é confirmado quando chega a ti?

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  15. Lendo esse texto mil lembranças me veem a mente, de um tempo onde eu não era eu, de onde não existia amor, apenas a vaga ideia do que seria este sentimento, mas que sentia-se como se fosse... e agora pensando vejo que aprendi que amor é muito mais que uma palavra, que uma ideia...

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